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Imagem: Fernando Schlaepfer

Aqui vão os 15 mais lançamentos mais representativos lançados em 2019 levando em consideração impacto cultural, letra, melodia e minhas modestas preferências pessoais. Confira:

Anitta, Ludmilla e Snoop Dogg – Onda Diferente

É curioso como o maior e talvez único, hit do primeiro álbum internacional de Anitta seja justamente uma canção em português. Trabalhando sua carreira no mercado estrangeiro há cerca de três anos, o disco trilíngue da cantora intitulado “Kisses” requisitou nomes fortes da indústria como Swae Lee, Alesso e Becky G mas, foi com a colega fluminense Ludmilla que a poderosa encontrou sucesso nas paradas brasileiras e portuguesas. De refrão chiclete e batida envolvente, a faixa se tornou um dos funks 150 BPM mais bem sucedidos e populares da era digital ganhando até recentemente uma auspiciosa paródia de humoristas da Rede Globo na retrospectiva “A Gente Riu Assim”. Brigas sobre sua verdadeira autoria a parte, o impacto da faixa foi tão grande que deu início a uma relevante discussão de profissionais sobre como uma canção deve ser creditada: o produtor das batidas e melodia pode ser considerado também um autor da obra musical?

Adam Lambert – Superpower

Ao sair do American Idol há dez anos atrás, Adam Lambert chamou atenção de alguns dos maiores nomes da história da música chegando a trabalhar com Lady Gaga, Max Martin, Ryan Tedder e Pink. Desde então, o cantor flertou com modismos da house music, rock e electropop mas, foi com o funk atemporal norte-americano que ele encontrou algumas das respostas mais positivas junto da crítica e público. Seu último EP “Velvet” traz influências de Prince, com uma sonoridade setentista caprichada com falsetes, sintetizadores, guitarras e baixo elétrico sendo considerado pela Billboard como o melhor álbum já lançado pelo cantor. Ironicamente também, foi com os funks do segundo álbum em estúdio “Trespassing” lançado em 2012 que Lambert deixou o seu nome marcado para todo sempre na música, se tornando o primeiro gay assumido a alcançar o topo da Billboard 200. Não deixa de ser uma lição para os Sam Smiths, Olly Alexanders e Troye Sivans que viriam depois.

Luan Santana – Quando a Bad Bater

Celebrando uma fase ligeiramente mais autoral na carreira, Luan Santana lançou esta faixa como o primeiro single do seu novo álbum/DVD “Viva”. Flertando com os bongôs da bachata, tendência latina do sertanejo atual, a faixa acabou batendo um recorde histórico em número de execuções nas rádios em 24h. Tendência antecipada também por Gusttavo Lima com “Milu” talvez justamente este diálogo com a bachata seja o flerte necessário com outros gêneros que o sertanejo precise para uma necessária renovação do ritmo que segue indiscutivelmente dominante. De melodia irresistível, a faixa traz uma composição inteiramente criada por Luan Santana o que indica que os conselhos dados pelo cantor à Paula Fernandes sobre o refrão em “Juntos e Shallow Now” poderiam perfeitamente ter sido melhor ouvidos.

Bruno Gadiol – Desculpa, Mas eu Só Penso Em Você

Alçado ao grande público por plataformas televisivas como The Voice Brasil, Malhação e TV Xuxa, o ator e cantor Bruno Gadiol deu início à carreira musical com o lançamento da balada romântica “Seu Costume” em 2018. Mas foi com “Desculpa, Mas Eu Só Penso em Você”, canção dos mesmos produtores dos hits de Jão, que o novato cantor experimentou uma sonoridade mais atenta às tendências radiofônicas flertando com EDM e electropop. Apesar do sintetizador pegajoso no refrão, a faixa não explora as qualidades vocais do intérprete que é afinadíssimo e de potência invejável. Numa década em que os melismas estadunidenses pareceu serem ofuscados por intérpretes de vozes mais comuns, “Desculpa, Mas Eu Só Penso Em Você” soa como um caminho comercialmente viável para os cantores gays no país.

Billie Eilish – Bad Guy

O apogeu dos sussurros e letras espinhosas de Billie Eilish só se fez possível por uma década onde os vocais estratosféricos de Aguileras perderam adesão junto ao público. Mais humana e próxima do real, a adolescente que cantou sobre saúde mental, depressão e suicídio acabou conquistando o topo das paradas mundiais com vocais e melodias minimalistas devidamente produzidos por seu genial irmão Finneas O’Connell. Sem um gancho bem definido e com um encerramento desacelerado pouco melódico, “Bad Guy” marca a década como um dos hits menos óbvios em uma era dominada pelo hip-hop, baladas reflexivas e electropop. Os sussurros pessimistas de Billie parecem ter vindo pra ficar. Dã!

Galantis & Dolly Parton – Faith

Uma das duplas de EDM mais amplamente reconhecidas no mundo, o Galantis vem estabelecendo o padrão para a dance music desde o início dos anos 2000. Composta por Christian Karlsson e Linus Eklöw suas contribuições de composição na música pop ainda podem ser ouvidas hoje em algumas das músicas mais icônicas da época. Karlsson, trabalhando com o pseudônimo Bloodshy, é o homem por trás de “Toxic”, de Britney Spears, que ganhou um Grammy de Melhor Gravação de Dança. Suas colaborações também incluem Madonna, Katy Perry e Kylie Minogue. Eklöw também estava agitando a indústria pop antes do nascimento de Galantis, principalmente por sua produção do single viral de Icona Pop, “I Love It”. E foi juntamente da compositora do clássico dos clássicos “I Will Allways Love You” (a diva country Dolly Parton) que o Galantis lançou neste ano uma das faixas que parecem já nascer prontas para as pistas de dança e para os fones de ouvido dos amantes de um bom electropop. Basta ter só um pouquinho de fé!

James Arthur – Falling Like The Stars

Com um drive vocal marcante, James Arthur chegou a ser citado nos últimos meses em comparações frequentes com seu conterrâneo Lewis Capaldi (do smash hit mundial “Someone You Loved”). James, aliás, surpreendeu ao revelar que chegou a bloquear no Twitter aquele que pode ser considerado o seu “rival britânico de vocais rasgados”. Enquanto o seu colega se esforça para fugir da maldição de “one hit wonder”, James Arthur emplacou em 2019 mais uma baladinha ao melhor estilo sofrência, pegada característica do cantor. A faixa que figurou na Adult Top 40 nos Estados Unidos e no sétimo lugar do UK, ocupou inclusive o horário nobre dos brasileiros em 2019. Na verdade, com uma tímida passagem pelo Brasil no ano passado, James Arthur se tornou o atual “queridinho das novelas das 19h” emplacando sua segunda balada romântica na trilha sonora de uma produção global. E novamente com a pompa de música do casal de mocinhos: um devido mela-cuecas de primeira grandeza.

Tones And I – Dance Monkey

2019 foi o ano em que muita gente descobriu a pegada politizada da “gordinha sensação” Lizzo e sua impactante presença de palco. Porém, uma outra gordinha, a australiana de apenas 19 anos chamada Tones and I parece ter um quê a mais que sua colega norte-americana: um timbre rasgado e agudo pra lá de memorável. Com um registro vocal que soa como uma “Ellie Goulding de maior alcance”, a cantora, que na verdade se chama Toni Walson, viu sua “Dance Monkey” viralizar na web depois de vídeos feitos por usuários do Tik Tok e Twitter. O resultado entrou para a história nos charts da Austrália e chegou a ficar onze semanas no topo das paradas britânicas superando os recordes de Whitney Houston e Rihanna na Terra da Rainha. Ainda de acordo com dados da Warner Music, o hit Dance Monkey se tornou em dezembro a música em inglês mais ouvida no Brasil. Vale ouvir também a baladinha “Never Seen The Rain” da cantora que com uma pegada menos eletrônica vem se destacando em audiência no Spotify.

Bixinho – Duda Beat (Lux & Tróia Remix) 

Vencedora de prêmios recentes de revelação pela APCA e Prêmio Multishow, a recifense Eduarda Simões se tornou o novo nome feminino da MPB em 2019. Chegou a quase ofuscar Lily Allen no Festival Cultura Inglesa deste ano com um cover em forró de Spice Girls e também com “Bixinho”, hit que na época, ainda nem tinha conquistado a trilha sonora de um comercial do Google ou embalado casal em novela das 21h. Última faixa a ser composta pela cantora e sua equipe para o álbum de estreia dela (“Sinto Muito”), a canção acabou sendo remixada neste ano por Lux & Troia se tornando a faixa de maior repercussão na carreira da cantora. Lançada ainda em 2018, a canção é daquelas que levanta discussões sobre músicas que são menos repercutidas do que seus remixes. Vale ouvir também a versão de “Tangerina” do álbum acústico MTV de Tiago Iorc na qual o músico brasiliense convidou Duda para aquela que se tornou uma das performances ao vivo mais delicadas do ano.

Kevin O Chris – Ela é Do Tipo

Um dos principais representantes do funk 150 BPM, Kevin O Chris acabou sendo alçado ao posto de funkeiro de maior alcance no país. De Drake a Safadão e passando por Post Malone, todo mundo quis cantar com o músico neste ano incluindo nomes como Ferrugem, Negra Li e Papatinho. Com uma melodia radiofônica pegajosa e um memorável gancho, “Ela é Do Tipo” chegou a alcançar o Top 10 no Spotify Global. O hit soa como mais um destes raros funks tipo exportação prontos para derrubar todos muros de preconceito que setores do Brasil e mundo afora ainda têm com o gênero.

Raising Hell – Kesha & Big Freedia

Kesha vinha de um comeback poderoso em 2017, quando voltou a ser assunto após a libertadora balada dramática Praying. Parecia natural que uma faixa mais lentinha e politizada poderia ser um caminho mais fácil para os charts. Mesmo assim, a cantora resolveu arriscar e cantar de uma maneira otimista sobre os pesadelos superados com sua antiga gravadora e envolvendo as denúncias de assédio com Dr. Luke. O resultado foi uma faixa que acabou batendo na trave e ficando de fora no Hot 100 da Billlboard mas, que é de longe a canção dançante mais entusiasmada do ano. Conforme entrevistas da cantora, a mensagem aqui talvez seja em tempos, tão obscuros e pesados pra tanta gente, porque não expurgar os demônios numa pista de dança?

Brisa – IZA

Como trilhar um caminho pelo pop nacional quando o electropop parece ter sido esgotado por Anitta e o funk, surrado por Ludmilla? Saindo pela tangente e explorando um outro gênero instrumentalmente mais sofisticado (“esquecido no churrasco”) e com alto apelo popular. IZA e a badalada trinca de produtores DOGZ conseguiram criar um pegajoso e libertador reggae sobre maconha antecipando a temática que voltaria a ser abordada por Ludmilla (com “Verdinha”) e Gloria Groove (em “Sedanapo”). A polissemia da canção até pode abordar também positividade, como IZA revelou ao UOL talvez tentando fugir de rótulos alucinógenos. Contudo, “Brisa” definitivamente traz a letra e a melodia matadoras com o “viés ideológico necessário” para estes tempos tão sombrios.

Sam Smith – How Do You Sleep

No começo do clipe de “How Do You Sleep”, Sam Smith aparece deprimido, meio “borocoxôzinho” sendo literalmente arrastado até ser tirado da inércia. Num vídeo que evoca os balls, enérgicos bailes oitentistas de drag queens dos EUA, o cantor britânico parece ter encontrado uma autencidade definitiva ao sair de sua zona de conforto das bem-sucedidas baladas tipo sofrência. Tudo com toques de EDM muito bem dançados e prontos para “balançar a perninha” da gay mais introspectiva do salão. A assinatura do mago do pop Max Martin, de Ilya Salmanzadeh e também do badalado sueco Savan Kotecha ajudam “How Do You Sleep” a se consolidar como um rasgado electropop contagiante com um dos turning points criativos mais interessantes do ano. Nem só de sofrência vive mais Sam Smith!

Madonna – Batuka

Em um dos seus discursos mais lembrados, Nina Simone disse certa vez que o “dever de um artista é refletir os tempos”. Em uma canção e clipe que evocam todo o colonialismo, gerontofobia e também o machismo dos nossos tempos, Madge aos 61 anos, continua rendendo discussões ao apresentar uma das faixas mais caprichadas de seu álbum de retorno. Para isso, a Rainha do Pop convidou um grupo de percussionistas portuguesas (Batukaderas) para um emocionante e ancestral clipe documental que quase faz a gente esquecer que “Faz Gostoso” com Anitta não ganhou (e provavelmente não vá ganhar) um videoclipe. Mas com os singles e clipes tão caprichados do Madame X alguém aí ainda liga? Vale ouvir também a radiofônica “God Control” que tem uma das viradas mais surpreendentes do ano ao se transformar numa deliciosa faixa disco.

Emicida – AmarElo

Há trinta anos atrás, Janet Jackon se tornou a primeira cantora mainstream a fazer uma parceria com um rapper pavimentando o caminho para diversos artistas até os dias de hoje. Na carona deste conceito e também da drag music, Emicida convidou a drag queen de maior alcance no país para uma relevante faixa que discursa sobre auto-aceitação, depressão e suicídio (daí o nome Amarelo da faixa lançada em setembro). Some-se a isso a performance vocal impecável de Majur e o sampling mais marcante do ano com o resgate de “Sujeito de Sorte” de Belchior. Ainda de quebra, o grande público foi apresentado a uma Pabllo mais sóbria e sisuda sem se render às fórmulas de um pop histriônico.  

Menções especiais: “Higher Love” de Whitney Houston e Kygo, “Zé do Caroço” de Jetlag e Anitta, “Juice” de Lizzo, “Sedanapo” de Gloria Groove, “Seu Crime” de Pabllo Vittar, “Old Town Road” de Lil Nas X, “Verdinha” de Ludmilla, “Tangerina” de Tiago Iorc e Duda Beat (acústico MTV) e “Motivation” de Normani.