Rodrigo Gorky
O produtor curitibano Rodrigo Gorky ao lado de Pabllo Vittar e da britânica Charli XCX nos bastidores de gravação do clipe "Flash Pose" (FOTO: Reprodução)

O papo de hoje é com o curitibano Rodrigo Gorky, produtor de hits que embalam a vida dos brasileiros há mais de uma década. O grupo do qual fez parte, o Bonde do Rolê, foi um dos primeiros artistas a assinarem na época, um contrato com o selo independente do produtor Diplo. O músico costuma admitir que mesmo com o sucesso em solo brasileiro, os sons do trio tocaram mais lá fora do que nacionalmente.

O som inovador do grupo que misturava principalmente funk carioca, com rock e eletrônico chegou a conquistar elogios da Rolling Stone gringa que os nomeou em 2007 como uma das Dez Bandas Para Se Ligar No Mundo Inteiro.

Uma das músicas mais famosas do grupo, a despretensiosa “Solta o Frango” que chegou a ser sucesso multimídia, fazendo parte da trilha do jogo “FIFA 08”, do blockbuster de terror The Ruins e também de uma campanha promocional de celulares Nokia.

Já nesta década, após entradas, saídas e as idas e vindas do grupo, Gorky decidiu focar mais no mercado brasileiro e no papel de produtor passando a colaborar com outros artistas da cena nacional. O músico foi responsável por participar no ano de 2012 da produção do “Motel,” disco de estreia da Banda Uó, além de ter produzido em 2016, o álbum “LP” de Luiza Possi.

E foi ao lado de um jovem gay maranhense de nome Phabullo, que Gorky conseguiu chamar atenção tanto da sua “própria aldeia tupiniquim” quanto dos ouvintes ao redor do mundo. Após ser apresentado em 2014 à uma drag sensação mineira, por seu colega de Bonde do Rolê, Pedro D’eyrot, foi que o fenômeno Pabllo Vittar começava a nascer. Daí a história quase todo mundo já conhece.

Gorky conversou com o Observatório de Música sobre a carreira de Pabllo e também a respeito algumas das questões que mais geram curiosidade nos fãs como a suposta censura que a cantora sofreu em um dos seus últimos singles, o eletroforró “Seu Crime”.

Considerada quase como uma sucessora natural do forró smash hit “K.O.”, “Seu Crime” imediatamente foi um sucesso espontâneo nas plataformas de streaming mesmo antes de se tornar single. Mesmo assim, a canção ficou muito longe de igualar as execuções nas rádios que “K.O.” teve em 2017. O assunto foi abordado por Gorky através da metáfora de “uma linha de fogo cruzado” pela qual o Brasil passa politicamente. Ironicamente, o clipe da canção brinca com uma das fake news de maior repercussão na eleição presidencial: o rosto de Pabllo Vittar estampando notas de reais.

Além de abordar o “111”, álbum trilíngue de Pabllo Vittar cuja primeira parte deve ser lançada no dia de aniversário da cantora em novembro, Gorky também comentou sobre a carreira de Urias, cantora trans de pegada mais densa e cáustica, que recentemente apresentou um dos clipes mais impactantes do ano até aqui. Confira a entrevista abaixo:

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Amiga de longa data da Pabllo, a cantora Urias lançou na semana passada, o caprichado clipe da faixa “Diaba”, seu maior single na carreira. Em nosso bate-papo, você chegou a citar o álbum Life of Pablo do Kanye West como inspiração do single “Diaba”. Por que? Quais serão as influências do primeiro EP da cantora?

RODRIGO GORKY: Todas as inspirações são vindas da própria Urias, então vem de Kanye, Megan Thee Stallion, músicas pra fritar em balada, temas leves, temas pesados, vem um pouco de tudo”.

Na década passada, as batidas do Bonde do Rolê foram precursoras ao apresentarem o funk brasileiro para o mundo. Alguns dos maiores players da indústria agora flertam com o gênero: Madonna, Ryan Tedder, J Balvin, Skrillexx e Cardi B, por exemplo.

Como você vê essa internacionalização do funk brasileiro? Acredita que “Malokera” de MC Lan e Ludmilla e também a parceria de Anitta e Catra com Cardi B poderá despertar a curiosidade dos estrangeiros que ainda não conhecem o ritmo?

RODRIGO GORKY: “É muito doido o quanto o mundo é pequeno no fim das contas, Skrillex conheceu funk por conta do bonde (que até me revelou um momento engraçado, que ele falou “mandava mensagens pra vcs direto no myspace, mas vcs nunca me responderam!”), e que veio hj em dia com Malokera. Acho que aos poucos e constante, o funk vai aparecendo em várias coisas lá fora, o que é incrível e só abre mais o caminho pra mostrarmos uma coisa tão única nossa”.

Além da faixa-título “Dona de Mim” do último disco de IZA, o time da Brabo Music também esteve por trás de “Garupa”. A parceria com Pabllo Vittar aliás foi escolhida para lead-single do primeiro álbum de Luísa Sonsa. Como você encara a possibilidade da equipe estar ajudando a moldar o pop brasileiro?

RODRIGO GORKY: “Hahahahahaha, a Brabo é o dream team pra isso! Cada um com um background completamente diferente um do outro tentando achar denominadores em comum, acho que essa é a “receita” especial do time”.

Com o “Não Para Não” da Pabllo, o time da Brabo Music passou bem longe da ‘maldição do segundo álbum’ que recai sobre muitos artistas e um dia após seu lançamento, o disco bateu recordes no Spotify. Logo, a faixa “Seu Crime” se tornou uma das queridinhas dos fãs na plataforma de streaming. Porque mesmo com tantos pedidos dos fãs e bons números, o single não tocou nas rádios?

RODRIGO GORKY: “O NPN foi muito trabalho mesmo, não só nosso, mas de todos os envolvidos, mas infelizmente estamos vivendo um momento muito estranho no país, onde um assunto tão sério como política é tratada não muito diferente de futebol e infelizmente artistas como Pabllo acabam caindo numa linha de fogo cruzado ridícula. Tendo isso, é inegável e até um pouco frustrante a dificuldade que temos de quebrar essas barreiras e consequentemente, ter nossas musicas tocando em rádios”.

Você chegou a comentar no Twitter que “Flash Pose” acabou superando “Garupa” como a melhor estreia da Pabllo no Spotify. Como foi o processo de criação das faixas? É muito diferente compor em inglês? A que você atribui a boa audiência das canções?

RODRIGO GORKY: Sim! Mas é uma movimentação diferente. Flash Pose foi um primeiro passo de fazermos coisas voltadas não somente pro Brasil, ainda estamos no processo de criação de tudo, com Pabllo ainda mais presente no processo.

Mas mudando de assunto um tiquinho, essa coisa toda de números é algo tão relativo – por exemplo, maior audiência de ouvintes mensais da PV é agora, e não quando tava estourada com KO, Sua Cara e Corpo Sensual. Vivemos em uma bolha preocupados com a radio que não toca ou com um “top 50” de plataforma digital, quando na verdade o foco todo tem que ser em fazer algo criativo, divertido e relevante.

Nas redes sociais, você disse que o “111” da Pabllo será praticamente “uma churrascaria com rodízio japonês”. Podemos esperar desde baladas até músicas mais dançantes?

RODRIGO GORKY: Pior que nem lembro disso! Acho que comentei pra dizer que é uma mistura doida, mas que funciona bem no Brasil. Mas acho que hoje o conceito do disco é outro: queremos que todas as músicas entrem numa playlist pra tocar em uma festa de aniversário (nesse caso, no aniversário da Pabllo). Baladas e músicas mais calmas tamo deixando pro próximo (do mesmo jeito que fizemos flash pose no começo do NPN), pq esse está sendo feito pra rasgar mesmo! rs